São duas da manhã e tu dormes ao meu lado. Crio este blog a pensar em ti, para que um dia possas ler e perceber o país e o mundo que existia quando nasceste. Ouço uma música cantada por Nina Simone (“He’s got the world in his hands”) e procuro certezas no futuro, tento resgatar a energia para poder ajudar a construir uma realidade confortável para ti.
Será que tens o mundo nas tuas mãos?
Escrevo-te poucas horas depois de Portugal ter assistido a uma das maiores manifestações de sempre desde a revolução de 25 de Abril de 1974. Muitos milhares de pessoas saíram à rua, em várias cidades, mostrando a sua insatisfação com a situação do país. Protestam contra um Governo, contra os credores de um empréstimo que permite o pagamento de uma máquina estatal insuportável. Protestam porque não vêem saída. Porque estão desempregadas, porque lhes cortaram as reformas, porque não têm dinheiro para comprar os livros para a escola dos filhos, porque não percebam para que servem os políticos, porque não têm confiança no futuro.
Desta vez não me manifestei. A tua avó soube passar-me os valores certos enquanto eu tentava perceber o mundo à minha volta. E agradeço-lhe por isso (e muito mais). Manifestei-me em muitas outras circunstâncias e agi civicamente sempre que tive oportunidade de o fazer.
Mas desta vez não fui para a rua. Estava contigo ao colo e só pensava no futuro que vais ter. Sinto uma revolta imensa não pelas ultimas medidas do Governo. Só quem não estava atento ficou surpreendido. E muitos estavam desatentos. Sinto revolta pelo estado a que o pais chegou e pela enorme cegueira de quem pretende construir uma sociedade diferente à força quando não receberam um mandato para o fazer.
Ontem não foi o fim deste Governo. Gostava de acreditar que ontem foi o primeiro dia de uma sociedade mais forte, esclarecida, que apresenta soluções, que vota, que se envolve, que exige e que cumpre.
Temo que ontem não tenha sido esse dia. Mas foi, pelo menos, o primeiro dia para muitos na rua, a primeira vez que se manifestaram. A este Governo (incluindo a troika) resta recuar nas medidas cegas e passar a pensar em alternativas mais coerentes e bem explicadas às pessoas.
Não basta derrubar Governos e insultar políticos, é preciso agir. Já.
O mundo de Daniel começa agora.
E que mundo, Filipe! Que o teu Daniel, tal como a minha Mafalda, possam ter um Portugal bem melhor que este que nos entregaram nas mãos e que terá de ser a tua e minha geração a resolver ou a apagar a luz antes de fechar a porta. Nunca pensei, nunca. Um abraço!
Temos de ser nós amigo, temos de ser nós
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