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Hoje foi o primeiro dia sem te ver durante muitas horas. Regressei ao trabalho enquanto ficaste a dormir. Ao teu lado está a mãe, felizmente com tempo para cuidar do teu choro e do teu sono. A mãe tem muito tempo para cuidar de ti e não sabe quando vai deixar de ter esse tempo. A mãe é uma entre cerca de um milhão de portugueses sem emprego. E antes disso era uma entre os muitos milhares com situação precária, com recibos verdes e sem qualquer ligação segura a uma empresa.

A mãe estudou muitos anos, concluiu com sucesso um curso difícil e concretizou o sonho de ser fisioterapeuta. Mas entretanto a profissão degradou-se, os terapeutas passaram a ser operadores em linhas de montagem e teve de ir atrás de outras soluções. Procurou a sua sorte, conseguiu sempre encontrar emprego. Arriscou, garantiu formação noutras áreas, diversificou conhecimentos. Quando a gravidez se tornou uma evidência o seu nome deixou de surgir na escala de serviços do sítio onde trabalhava.

A mãe ficou com muito tempo para ti e não sabe quando vai conseguir ter menos tempo.

 

Artigo 58.º
Direito ao trabalho

 
1. Todos têm direito ao trabalho.

2. Para assegurar o direito ao trabalho, incumbe ao Estado promover:

a) A execução de políticas de pleno emprego; 
b) A igualdade de oportunidades na escolha da profissão ou género de trabalho e condições para que não seja vedado ou limitado, em função do sexo, o acesso a quaisquer cargos, trabalho ou categorias profissionais; 
c) A formação cultural e técnica e a valorização profissional dos trabalhadores.”

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4 thoughts on “Direito ao trabalho

  1. Caro Filipe

    Em situação diametralmente oposta, também tive o meu filho. O drama (nem melhor, nem pior) era distinto. Eu para trabalhar estava a 200 km de casa, ela por ser precária tinha dois empregos (tinha medo de perder um, por isso tinha que manter os dois: um a 50 km de casa o outro a 120).

    parabéns pelo blog

    rafael

    • Olá Rafael,

      Sei que a minha situação não é a pior e está muito longe de ser única. É apenas um caso que quis partilhar e todos nós temos o direito a falar e devemos fazê-lo da melhor forma que conseguirmos.

      Abraço

  2. Olá Fili. Após ler o texto apraz-me dizer que “aí está mais uma filha da putice”. Acho que o teu filho quando ler isto já terá idade para perceber, talvez, isto que digo. Espero que ainda assim mantenhas a força para resistir e para sonhar. Pelo menos pelo teu filho. Eu já deixei de sonhar há algum tempo. Foi há pouco tempo, mas parece tão longe os tempos em que trabalhos (e sonhamos) juntos. Será que era o mesmo País? Um abraço

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